sábado, 16 de julho de 2016

[MA01] Introdução

“Pare de me olhar com essa visão dantesca. Talvez eu não seja o anjo mais puro do paraíso, mas também não sou nenhum monstro.”

Eram duas horas da manhã de uma quarta-feira. Todas as casas daquele pequeno vilarejo inglês estavam escuras, exceto aquela. Sua aparência demonstrava um belo padrão arquitetônico da década de noventa. Pela pintura seria possível deduzir que naquelas paredes pouquíssimas vezes foram aplicadas novas mãos de tinta. O telhado logo, acima do segundo andar, era firme feito de telhas coloniais. Havia de belo naquela casa apenas uma sacada florida, com um belo telescópio. Moraria ali, naquele ponto isolado da tecnologia, algum astrônomo?
Naquela madrugada caia uma chuva torrencial, própria do verão britânico. Os vilões que ali moravam temiam os poderes da natureza. O anglicanismo se estabelecia como a religião mais influente, praticada naquele lugarejo em uma pequena capela. Não era incomum os moradores associarem tudo à vontade divina. Todos os esforços de um homem incomum para explicar como realmente uma chuva era formada foram inúteis. Tais atos davam-se por teses afixadas na porta da capela. “Aquele homem é completamente louco!” “Não olhem, crianças!”
O que mais movia aquele povo era, é claro, o medo de queimar no fogo do inferno. Nas celebrações o clérigo sempre reservava algum tempo para falar dos castigos eternos que o plano inferior reservava aos pecadores. “Deus disse: Os gananciosos tomarão um banho eterno em ouro fervente! A comida que os glutões se abusam será negada pela eternidade”. O dízimo que aquela igreja recebia não era alto o suficiente para encher cofres, mas fato é que grande parte dele era recebido durante essa parte da pregação.
Saía daquela casa um homem de aparência singular. Segurava por baixo dos braços uma moldura rústica e tinha nas costas uma mochila preta. Seus cabelos ruivos franjados estavam agora cobertos por um capuz conjunto de uma capa de chuva. Essa capa era muito popular naquela época. Ele andava apressado. Usava luvas pretas que não cobriam os dedos. Ele sabia que talvez, depois do que fosse fazer, talvez nunca mais poderia voltar pra casa. “Casa? Ridículo chamar isso de lar.” Seu passado era cada vez mais curto, sua respiração mais ofegante. “Não é como se eu estivesse fazendo algo errado. Talvez de forma errônea, mas tal ato, errado? Jamais.”
Depois de cerca de trinta minutos de caminhada lá estava ele. Aquela praça fedia a bebidas. Fato esse pode ser explicado por uma importante celebração realizada naquela noite. A Páscoa era, para aqueles, tempo de compensar todo o álcool que não foi tomado nos últimos quarenta dias de penitência. Aquilo deixava o estômago do homem embrulhado. Ele assentiu com a cabeça e, logo depois de tirar um martelo da mochila pregou seu quadro e pendurou uma sacola contendo um livro.
Em outra casa o dia seguinte começou cedo para Antonie. O trabalho de pároco o deixava exausto. O que mais lhe cansava, porém, era cuidar de um bebê recém nascido. A garota, que até então não tinha nome, tinha sido abandonada em um rio que banhava aquele lugar. Como não há na região nenhum orfanato os moradores acharam conveniente deixá-la na casa paroquial. Naquela manhã ele pensou em voz alta:
  • Aquela  menina facilitará e muito minha vida daqui a algum tempo. A população está perdendo sua fé em Deus mas depois de cuidar dessa criança a fé em mim só irá aumentar.
Ele notou algo estranho acontecendo na praça. Um alvoroço montado em frente a sua igreja.

  • Aquele maldito me paga!

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